Acredite: sua privacidade morreu

Tecnologia

POR Carlos Augusto

23/04/2019

Caro leitor! 
Sinto informar: sua privacidade morreu, e faz tempo. Já vou avisando: este texto não é uma teoria da conspiração.
E, para iniciar, pergunto: o que você estava fazendo na manhã do dia 11 de setembro de 2001? Lembrou? Pois bem, quem poderia imaginar que o ataque às Torres Gêmeas, no coração de Manhattan, em Nova Iorque, afetaria a forma através da qual as empresas usariam os dados de seu telefone celular?


(Torres Gêmeas pegando fogo após serem atingidas por aviões - Foto: Michael Foran)

Por culpa daquele evento, e na ânsia de capturar os responsáveis do ataque, o então presidente americano, George W. Bush,  apresentou ao Congresso um projeto de lei destinado a expandir os poderes do governo para vigiar, investigar e deter supostos terroristas. Esta lei foi aprovada em 26 de outubro de 2001 e ficou conhecida como  “USA Patriot Act”, ou “Ato patriota Americano”. 


(Momento da Assinatura do Ato Patriota, em 26 de outubro de 2001)

A partir daí, o governo não precisaria mais da autorização de um juiz para saber quais os sites que alguém visitou, ou que buscas fez no Google. Agora, o governo solicita diretamente ao provedor de serviços, seja Google, Facebook, Twitter etc. 

Até aí tudo bem; quem não quer castigar terroristas? Além do mais, eu não sou terrorista, nem você.

Esta lei também “determinava” que as empresas de tecnologia criassem um departamento para repassar mais rapidamente as informações dos usuários diretamente para o NSA, a Agência de Segurança Nacional.
Então, quando o governo solicitasse suas informações, a empresa tinha que repassá-las imediatamente, por lei.


(Quartel general da Agência Nacional de Segurança em Fort Meade, Maryland (Foto: Getty)

Por outro lado, aproveitando essa brecha, as empresas de tecnologia cada vez mais “capturam” dados, com sua ampla e total permissão. Sabe como? Antes da instalação de cada App aparece aquela tela com os “termos e condições” os quais temos que aceitar para obter o aplicativo. Tenho a certeza de que nem eu, nem você (nem os advogados!) lemos estes longuíssimos termos; aceitamos prontamente para iniciar a instalação.


(Foto: Reprodução/Helito Bijora)

“É grave dotô?”
SIM!

Os itens abaixo foram retirados dos termos do Facebook Messenger, e são bizarros:

Permissão para receber uma lista de contas conhecidas no telefone, incluindo quaisquer apps instalados no aparelho. (O Facebook sabe todos os aplicativos que você tem instalados em seu smartphone);
Permissão para gravação de áudio com o microfone do celular sem confirmação do usuário. (Você DEU permissão para o Facebook gravar sua voz, usando o microfone do seu telefone. Facebook, seu lindo);
Permissão de uso da câmera para fazer fotos e vídeos sem a confirmação do usuário (Como? Sim, isso mesmo, o Facebook usa a câmera do seu smartphone para fazer fotos, sem te avisar… E você usando o celular no banheiro não é? Vixe Maria!!)
Permissão para identificar o usuário pelas informações guardadas no celular, com nome e informações de contato. Estes dados podem ser enviados para terceiros. (Aí é que entra o absurdo, o Facebook vende nossos dados com empresas parceiras, e não ganhamos nada com isso).

Tem uma máxima da tecnologia que eu gosto muito: “quando o app é de graça, o produto é você”.

No documentário “Sujeito a termos e condições”, disponível no Netflix, que deixo aqui como sugestão de programa de fim de semana, são relatados vários exemplos de invasão de privacidade, inclusive um caso com intervenção da SWAT, assista e veja com seus próprios olhos.


Documentário “Sujeito a termos e condições” disponível no Netflix.

Antes, as empresas capturavam dados para criar perfis de consumo para vender a empresas terceiras; estas, por sua vez, ofereceriam produtos segmentados, de acordo com o perfil de cada um.

Ultimamente, porém, estão passando dos limites. Agora os apps estão, a qualquer momento, ouvindo nossa conversa, e não apenas quando você aciona os assistentes pessoais (Siri ou Google Assistant). 
Há controvérsias;  o fato ainda não foi comprovado, mas os relatos estão aumentando.
Aconteceu recentemente comigo: numa conversa informal com um amigo no café, falamos sobre viajar para um determinado local. Enquanto isso, nossos smartphones esavam em cima da mesa, ouvindo tudo (imagino eu). 
Dito e feito! No outro dia, meu telefone mostrava propagandas sobre aquele lugar específico. Outro caso foi o da apresentadora da Globo, Rafa Brites, que em seu instagram publicou:

“O seu celular também te escuta? Tudo que você fala aparece como propaganda depois? Alguém me explica isso por favor?” 



Os especialistas Ken Munro e David Lodge, da consultoria Pen Test Partners, perguntados sobre se é fisicamente possível que sejamos espionados por nossos celulares, confirmaram a tese: nossos celulares podem, sim, nos espionar.

Eles criaram um protótipo de um aplicativo. Passaram, então, a falar perto do telefone e, surpreendentemente, perceberam algumas palavras chave eram capturadas e exibidas em seu sistema.
"Tudo o que fizemos foi utilizar a funcionalidade existente no Android. Optamos pelo Android pela facilidade de uso", disse Munro.
"Permitimos que o aplicativo acessasse o microfone do telefone, configuramos um servidor de áudio na internet, e tudo o que o microfone ouviu nesse telefone, chegou aos nossos terminais, o que nos permitiria, se quiséssemos, criar propaganda personalizada".

Fica a dica: se quer privacidade, feche a janela, as cortinas, apague a luz e principalmente: desligue o telefone!

Carlos Augusto é entusiasta de tecnologia desde que ganhou seu primeiro videogame em 1985, o Odyssey da Philips.

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Carlos Augusto

Carlos Augusto M. Costa, 42 anos, pós-Graduado em Docência do Ensino Superior e especialista em Gestão da Tecnologia da Informação, empreendeu no segmento de informática por quase 10 anos e atuou como Gerente de Tecnologia da Informação do Shopping Partage Natal por 7 anos. É Professor de Graduação e Pós-Graduação da Escola de Negócios da Universidade Potiguar,  Campus Mossoró.